No aspecto psicológico, o luto é considerado um processo doloroso tanto para ciência espírita, quanto para ciência terrestre. Segundo a psicóloga Nayara Milhorança Gil, "o luto é um processo de angústia resultado de uma perda significativa em nossa vida e tende a fazer parte de todo fim que vivenciamos". (Fonte: G1 - O portal de notícias da globo. Artigo: Psicóloga revela fases do luto e como ele pode ser superado aos poucos. Data: 03-09-19)
De acordo com a ciência terrestre, "o luto é uma reação normal, física e emocional, que ocorre quando vivenciamos uma perda importante em nossa vida, como a morte de um ente querido. O processo do luto é vivido e sentido de forma individual, isto é, cada pessoa sente as perdas do seu jeito, de acordo com as suas características psíquicas e emocionais." (Manual de orientações sobre luto. Hospital das Clínicas da faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP)
Dentre as várias teorias que abordam o luto, uma das mais consideradas, é dos cinco estágios do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação), proposta pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004), que se especializou em cuidados paliativos e em situações próximas da morte. Segundo a autora, estes cinco estados mentais do enlutado "terão duração variável, um substituirá o outro ou se encontrarão, às vezes, lado a lado," porém essa teoria carece de evidências científicas. (Vide: As cinco fases do luto de Elisabeth Kübler-Ross: fato ou ficção? Larissa Burmann Barcellos e Márcio Borges Moreira)
De acordo com a Doutrina Espírita a perda de entes queridos causa dor, mas também representa para o enlutado uma prova (para exercitar a paciência e resignação) ou expiação devido às faltas cometidas em vidas anteriores ou nesta existência, pois é uma lei estabelecida por Deus.
Allan Kardec fez uma pergunta sobre este assunto aos Espíritos Superiores e obteve a seguinte resposta:
A perda dos entes que nos são caros não constitui para nós legítima causa de dor, tanto mais legítima quanto é irreparável e independente da nossa vontade?
"Essa causa de dor atinge assim o rico, como o pobre: representa uma prova, ou expiação, e comum é a lei. Tendes, porém, uma consolação em poderdes comunicar-vos com os vossos amigos pelos meios que vos estão ao alcance, enquanto não dispondes de outros mais diretos e mais acessíveis aos vossos sentidos." (O Livro dos Espíritos. Questão 934. Allan Kardec)
Comentário de Allan Kardec: "A possibilidade de nos pormos em comunicação com os Espíritos é uma dulcíssima consolação, pois que nos proporciona meio de conversarmos com os nossos parentes e amigos, que deixaram antes de nós a Terra. Pela evocação, aproximamo-los de nós, eles vêm colocar-se ao nosso lado, nos ouvem e respondem. Cessa assim, por bem dizer, toda separação entre eles e nós. Auxiliam-nos com seus conselhos, testemunham-nos o afeto que nos guardam e a alegria que experimentam por nos lembrarmos deles. Para nós, grande satisfação é sabê-los ditosos, informar-nos, por seu intermédio, dos pormenores da nova existência a que passaram e adquirir a certeza de que um dia nos iremos a eles juntar." (O Livro dos Espíritos. Questão 935. Allan Kardec)
A evocação é a maneira pelo qual nos comunicamos com os Espíritos, podendo ser realizada através do pensamento oculto, ou de forma ostensiva, por meio de médiuns (intermediários). Pensar num espírito é evocá-lo, como ensina Kardec. No entanto, nem sempre conseguimos nos comunicar com os entes queridos, pois a comunicação efetiva depende da sua situação, da vontade deles, e da permissão de Deus. (Vide: O Livro dos Médiuns. Segunda Parte. Cap. 25. Itens 274 a 277. Allan Kardec)
Por que todas as mães que choram seus filhos, e que ficariam felizes se com eles se comunicassem, muitas vezes não o podem? Por que a visão deles lhes é recusada, mesmo em sonho, não obstante seu desejo e suas preces ardentes?
"Além da falta de aptidão especial que, como se sabe, não é dada a todos, por vezes há outros motivos, cuja utilidade a sabedoria da Providência aprecia melhor que nós. Essas comunicações poderiam ter inconvenientes para as naturezas muito impressionáveis; certas pessoas poderiam delas abusar e a elas se entregar com um excesso prejudicial à saúde. A dor, em semelhante caso, sem dúvida é natural e legítima; mas algumas vezes é levada a um ponto desarrazoado. Nas pessoas de caráter fraco, muitas vezes essas comunicações tornam mais viva a dor, em vez de a acalmar, razão por que nem sempre lhes é permitido receber, mesmo por outros médiuns, até que se tenham tornado mais calmas e bastante senhoras de si para dominar a emoção. A falta de resignação, em semelhante caso, é quase sempre um motivo de retardamento.
Depois, é preciso dizer que a impossibilidade de comunicar com os Espíritos que mais se ama, quando se o pode com outros, é muitas vezes uma prova para a fé e a perseverança e, em certos casos, uma punição. Aquele a quem esse favor é recusado deve, pois, dizer-se que sem dúvida mereceu; cabe-lhe procurar a causa em si mesmo, e não atribuí-la à indiferença ou ao esquecimento do ser lamentado.
Finalmente, há temperamentos que, não obstante a força moral, poderiam sofrer o exercício da mediunidade com certos Espíritos, mesmo simpáticos, conforme as circunstâncias. Admiremos em tudo a solicitude da Providência, que vela sobre os mínimos detalhes, e saibamos submeter-nos à sua vontade sem murmurar, porque ela sabe melhor que nós o que nos é útil ou prejudicial. Ela é para nós como um bom pai, que nem sempre dá a seu filho o que ele deseja.
Dão-se as mesmas razões no que concerne aos sonhos. Os sonhos são as lembranças do que a alma viu no estado de desprendimento, durante o sono. Ora, essa lembrança pode ser interdita. Mas aquilo de que não nos lembramos não está, por isto, perdido para a alma; as sensações experimentadas durante as excursões que ela faz no mundo invisível, deixam ao despertar impressões vagas; e não referimos pensamentos e idéias cuja origem muitas vezes não suspeitamos. Podemos, pois, ter visto durante o sono os seres aos quais nos afeiçoamos, com os quais nos entretemos e não lhes guardar a lembrança. Então dizemos que não sonhamos." (Revista Espírita. Agosto de 1866. Comunicação com os seres que nos são caros. Allan Kardec)
"A vida espiritual é, com efeito, a verdadeira vida, é a vida normal do Espírito, sendo-lhe transitória e passageira a existência terrestre, espécie de morte, se comparada ao esplendor e à atividade da outra. O corpo não passa de simples vestimenta grosseira que temporariamente cobre o Espírito, verdadeiro grilhão que o prende à gleba terrena, do qual se sente ele feliz em libertar-se." (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 23. Item 8. Allan Kardec).
Como nascer, a morte é um fenômeno natural. Nascer, morrer, renascer, ainda, e progredir sempre, tal é a lei .
Não devemos ficar entristecidos demais com a morte, pois o Espírito é sensível à lembrança e aos lamentos daqueles que amou. A nossa tristeza pode lhes afetar e causar sofrimento. O que parte primeiro é o que primeiro se liberta e só nos cabe felicitá-lo, aguardando com paciência o momento do nosso reencontro. Estando o Espírito mais feliz no Espaço que na Terra, seria egoísmo nosso querer ele fique mais tempo conosco.
Nas cartas consoladoras psicografadas pelo médium Chico Xavier, recebidas pelos pais aflitos que pediam notícias dos seus filhos desencarnados, observamos alguns conselhos deles, vejamos:
Espírito Tereza Cristina (desencarnada com 22 anos por desabamento de um prédio) disse: "Mãezinha, o nosso maior receio, a princípio, foi o de que a senhora viesse para cá por conta própria. Vimos o seu desejo de tudo deixar ai para acompanhar-nos. Reconheço que a formação cristã que a senhora recebeu não lhe permitia pensar em suicídio, mas aquele anseio de reencontro era perigoso. Hoje, ficaremos mais tranquilas. É preciso lutar, mamãe, suportar as nossas provas e abençoar todas elas. É preciso aceitar a vontade do Senhor que é bondade constante para conosco. Tudo recebemos do Céu como sendo o melhor que nos sucede. A inconformação é que taxa com sofrimento maior as ocorrências difíceis do mundo. Um dia, nós nos reencontraremos de novo, mas pode acreditar que espiritualmente não nos separaremos. Papai necessita de sua presença, de seu amparo, de seu amor." (Exugando lágrimas. A fonte que nos lava o coração. Psicografado por Chico Xavier. Elias Barbosa)
Espírito Édimo José (desencarnado com 15 anos por doença) disse: "Mãezinha, venho pedir à senhora, a meu pai e à vovó Iuca, não julgarem que fui vítima de abandono. Mamãe, os médicos não merecem acusações. Eles fizeram tudo para seu filho. A inflamação era muita. Não havia dreno para atender às necessidades do meu corpo doente. Venho pedir para aceitarem a Vontade de Deus. Meu avô fala na vontade de Deus e é o que posso compreender como sendo a lei que não me permitia demora por mais tempo. (...) Mãezinha querida, peço-lhe cuidar de alimentar-se com segurança. Os irmãos continuam precisando de sua proteção, principalmente Elcione e Ione. Abraços aos meus irmãos. (...) Diga ao papai que os amigos daqui vão auxiliar a ele para que as preocupações desapareçam. Sei que a minha doença foi uma aflição pesando em todos. Mamãe, confie em Deus e sinta-me beijando o seu rosto. Não quero vê-la triste, e nem revoltada com pessoa alguma. " (Horas de luz. Édimo José de Lima Júnior. Psicografado por Chico Xavier. Elias Barbosa)
Espírito Antônio Carlos Escobar (desencarnado com 21 anos por acidente de avião) disse: "Querida Mãezinha, querida vovó Armanda, querida tia Isabel. Venho pedir a Deus que nos abençoe e pedir-lhes para não chorarem tanto. Estou aqui com o meu avô Primitivo Aymoré e com a minha avó Isabel Rôa Escobar, mas estou muito preso às lágrimas de casa. Querida tia Isabel; se puder, não deixe a vovó chorar tanto, nem a minha Mãezinha Gilda continuar tão aflita por minha causa. Estou vivo, mas preciso desembaraçar-me das prisões de casa para conseguir melhorar. O meu avô Primitivo me diz que preciso fazer este pedido para que a minha situação consiga melhorar. Às vezes, me reconheço nas ruas de Ponta Porã ou de Pedro Juan Caballero, perguntando porque... Mas, isso resulta de quando me ontemplam os retratos, chorando muito e chamando-me. Não culpem ninguém, porque eu tinha tido a obrigação de vir mais cedo para cá. As leis de Deus funcionam sobre as nossas cabeças, e não havia como fugir a elas. Rogo-lhes conformação, à mãe Armanda. Estive com vovô Ayala, que meu deu excelentes conselhos. Agora, peço-lhes para descansarem para que eu descanse. Os que chegam aqui, vêm tudo quanto se passa aí, e espero que me auxiliem. (...) Morrer não significa acabar. Estou rente com a família, e assim que as lágrimas diminuírem, penso que vou trabalhar muito." (Claramente vivos. Morrer não significa acabar. Psicografado por Chico Xavier. Elias Barbosa)
Sobre este assunto, vejamos os esclarecimentos dos Espíritos Superiores em "O Livro dos Espíritos", publicado por Allan Kardec:
Como é que as dores inconsoláveis dos que sobrevivem se refletem nos Espíritos que as causam?
"O Espírito é sensível à lembrança e às saudades dos que lhe eram caros na Terra; mas, uma dor incessante e desarrazoada o toca penosamente, porque, nessa dor excessiva, ele vê falta de fé no futuro e de confiança em Deus e, por conseguinte, um obstáculo ao adiantamento dos que o choram e talvez à sua reunião com estes.
Estando o Espírito mais feliz no Espaço que na Terra, lamentar que ele tenha deixado a vida corpórea é deplorar que seja feliz. Figuremos dois amigos que se achem metidos na mesma prisão. Ambos alcançarão um dia a liberdade, mas um a obtém antes do outro. Seria caridoso que o que continuou preso se entristecesse porque o seu amigo foi libertado primeiro? Não haveria, de sua parte, mais egoísmo do que afeição em querer que do seu cativeiro e do seu sofrer partilhasse o outro por igual tempo?
O mesmo se dá com dois seres que se amam na Terra. O que parte primeiro é o que primeiro se liberta e só nos cabe felicitá-lo, aguardando com paciência o momento em que a nosso turno também o seremos.
Façamos ainda, a este propósito, outra comparação. Tendes um amigo que, junto de vós, se encontra em penosíssima situação. Sua saúde ou seus interesses exigem que vá para outro país, onde estará melhor a todos os respeitos. Deixará temporariamente de se achar ao vosso lado, mas com ele vos correspondereis sempre: a separação será apenas material. Desgostar-vos-ia o seu afastamento, embora para bem dele?
Pelas provas patentes, que ministra, da vida futura, da presença, em torno de nós, daqueles a quem amamos, da continuidade da afeição e da solicitude que nos dispensavam; pelas relações que nos faculta manter com eles, a Doutrina Espírita nos oferece suprema consolação, por ocasião de uma das mais legítimas dores. Com o Espiritismo, não mais solidão, não mais abandono: o homem, por muito insulado que esteja, tem sempre perto de si amigos com quem pode comunicar-se." (O Livro dos Espíritos. Questão 936. Allan Kardec)
Sensibiliza os Espíritos o lembrarem-se deles os que lhes foram caros na Terra?
"Muito mais do que podeis supor. Se são felizes, esse fato lhes aumenta a felicidade. Se são desgraçados, serve-lhes de lenitivo. "(O Livro dos Espíritos. Questão 320. Allan kardec).
"Os Espíritos sofredores reclamam preces e estas lhes são proveitosas, porque, verificando que há quem neles pense, menos abandonados se sentem, menos infelizes. Entretanto, a prece tem sobre eles ação mais direta: reanima-os, incute-lhes o desejo de se elevarem pelo arrependimento e pela reparação e, possivelmente, desvia-lhes do mal o pensamento. E nesse sentido que lhes pode não só aliviar, como abreviar os sofrimentos." (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 27. Item 18. Allan Kardec)
Sendo assim, devemos orar pelos nossos entes queridos que desencarnaram, enfrentar e aceitar o acontecimento com o máximo de equilíbrio possível, que só poderá ser alcançado com a compreensão plena das leis que regem o fenômeno (tais como: as provas e expiações). Por mais que a separação e a saudade lacere a nossa alma, é preciso levantar-se e seguir em frente, honrando os compomissos assumidos na Terra, pois a vida continua para todos, seja no mundo material ou espiritual. Além do mais, um dia, estaremos reunidos novamente.
Obs.: Caso o enlutado perceba que o processo do luto tenha desencadeado distúrbios psicológicos mais sérios, como a depressão patológica (prolongada), recomenda-se procurar assistência no Centro Espírita, para assistir palestras, receber passe magnético e água fluidificada, e por vezes, é necessário simultaneamente realizar acompanhamento especializado com psicólogo para fortalecer a mente contra os pensamentos negativos.